CIEG - Centro Interdisciplinar de Estudos Grupais Enrique Pichon-Rivière

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A arte de escrever para reparar

O processo de criação como indagação e práxis para a saúde mental: A arte de escrever para reparar. Cenários, personagens, vínculo e metáforas.

Chegar à elaboração desta oficina implicou basicamente na articulação de conceitos desenvolvidos por Pichon-Rivière e Ana Quiroga e os conhecimentos junto com a experiência sobre os recursos literários, especialmente a metáfora.

A indagação sobre o processo de criação e reparação através da escrita foi mostrando- me o caminho para entender a dinâmica interna dessa práxis para a saúde mental. A concepção de sujeito como produtor e produzido; a de Mundo interno como cenário das representações; a passagem fantasiada do mundo externo para o mundo interno e a relação dialética entre esses dois mundos como saúde mental;  o conceito de vínculo; o interjogo de papéis; o processo transferencial; as Matrizes de aprendizagem, se tornaram instrumentos para a práxis da expressão através do conto, da poesia, da metáfora, como possibilidades de ressignificação e reparação.

Proponho-me aqui uma aproximação à compreensão desse processo.

  1. Cenários e personagens

Quando Pichon fala de mundo interno como cenário no Prólogo a El Processo Grupal e traz representações, personagens e papéis, está falando de teatro, de drama.

O drama tem um roteiro, um libreto, isso quer dizer que esse cenário, seus personagens, seus papeis foram uma construção a partir do mundo externo. Alguém, ator, estará representando um papel, será personagem, mas esse alguém, que em algum momento foi pessoa no mundo externo, foi capturado ou selecionado, recortado, reinventado por quem escreve e que através do personagem conta, narra, dialoga, sente, pensa e faz. É o narrador quem escreve, que nos leva da mão por suas histórias ou pela história dos outros, mas sempre será ele, quem as trará recriadas.

Então numa primeira aproximação poderíamos dizer que o processo de criar através da escrita sempre será uma forma de recriar cenas, pessoas, vínculos.

No livro “Conversaciones con Enrique Pichon-Rivière” de Zito Lema, Pichon fala do processo de criação como uma passagem do sinistro para o maravilhoso; ele dirá que “Desde o ponto de vista psicológico deve destacar-se que a vivência da morte é o fundamental em toda situação de criação”, que a “obra de arte é capaz de produzir a vivência do maravilhoso” (pag. 129)… “com um sentimento subjacente de angustia, de temor ao sinistro e à morte. E que por isso mesmo serve para recriar a vida”. “Esses produtos se originam num processo que concilia e que consegue a reconstrução do objeto previamente desmembrado através de uma técnica específica. É como si fosse um quebra-cabeças. Tudo dependerá de como se colocam as peças e do sentido que se busque com elas”. (pag. 128)

Essa construção pichoniana e todas as que desenvolve no capítulo VIII “A amplitude criativa. Mecanismos internos. Arte e loucura. O poeta Antonin Artaud. Uma pequena verdade”, foram as bases para minha reflexão sobre o processo  de criação, especificamente, o processo da escrita como reparação.

A situação de perda é vivenciada pelo sujeito como desintegração, destruição do objeto dentro, no âmbito intrassubjetivo.

Si pensamos no cenário com seus personagens, vínculos e suas representações, a perda de um objeto, segundo Pichon-Rivière será a vivência do sinistro, do espanto, do contacto com o vazio e o processo de criação será a integração no mundo externo, através da arte, do objeto fantasiadamente destruído no mundo interno.

Essa é a passagem do sinistro para o maravilhoso; na medida em que vamos integrando o objeto fora, vamos reparando o objeto dentro, vamos ressignificando a situação de perda. Quando tive contato com essa construção pichoniana apareceu uma imagem com a que construí uma metáfora e que dou como exemplo nas minhas aulas como docente: Quando perdemos algo o alguém é como se um jarro de cerâmica se quebrasse dentro de nós; a sensação é como se estivesse feito pedaços, em muitos pedacinhos e o processo de reparação seria como tomar caquinho por caquinho e ir colando-os.

A criação através da escrita, conto, poesia, metáfora seria essa ação integradora na qual se vai recriando dentro o objeto, jarro; ele no voltará a ser o que era, mas poderemos colocar água, flores, pois él estará reparado; de vez em quando aparecerá um furinho e teremos que retirar as flores, a água e novamente colocar cola, unir, então colocaremos outra vez as flores, a água, e ele voltará a cumprir sua função de sustentação. É um processo de reparação e cura porque na medida em que criamos um objeto fora vamos reconstruindo dentro o objeto fantasiadamente destruído.

Numa segunda aproximação poderíamos dizer que o processo de criar através da escrita sempre será uma forma de reparar, de ressignificar situações de sofrimento.

Tomando a Ana Quiroga, quando diz: “Em cada aqui y agora somos a síntese de una trajetória de experiências de aprendizagens” nos introduz aos Modelos Internos ou Matrizes de aprendizagem com uma bela e sintetizadora metáfora. Esses Modelos podem bloquear ou potencializar novas aprendizagens e por tratar-se de um sistema aberto eles podem ser ressignificados.

Todas essas experiências de aprendizagem que incluem formas organizadas e significadas de pensamentos, sentimentos e ação, foram inscritas no mundo interno, nesse cenário. Algumas de essas cenas bloquearam outras aprendizagens porque foram experiências frustrantes, desprazeirosas, dolorosas. Sem perceber ou percebendo, de forma latente ou manifesta, ficaram congeladas, se detiveram no passado e não permitiram que outras aprendizagens pudessem desenvolver-se.

Entonces tenemos cenas que fueron significativas y detenidas en el pasado; muchas veces con una carga emocional alta porque no pudieron ser elaboradas. Outras cenas chegam com mais facilidade, às vezes são chamadas para encontrar-nos com lembranças que nos aliviam, nos trazem bem-estar, satisfação.

O contato com essas cenas na oficina pode ser direcionado: Fechar os olhos e conectar- se com uma cena da infância; quem são os personagens dessa cena, quem são os personagens, que lugar ocupa ou ocupou na minha vida. Eu estou em que lugar, como estou, o que estou fazendo? Como me vejo? Que sentimentos eu tinha nessa ação? Com quem estou, tem mais pessoas? Estou só? Se estou com outros, estou em interação?

Quando se solicita tomar contato com uma cena da infância ou outros momentos da vida de forma livre, elas sempre serão significativas, por isso se apresentam ante nós trazendo conteúdos manifestos e latentes que poderemos indagar para buscar vários significados.

A cena que aparece, que se expressa através de um texto, conto, poesia ou metáfora, será sempre um significante sobre o que indagaremos suas possibilidades de significados.

Numa terceira aproximação poderíamos dizer que o processo de criar através da escrita, tomando contato com cenas congeladas no passado, sempre será uma forma de ressignificar experiências de aprendizagem, bloqueadoras de outras aprendizagens.

Do artigo “O grupo, sustentação e determinação do psiquismo” de Ana Quiroga, elaboro a importância do grupo e do vínculo como espaços de sustentação do psiquismo para o processo de criação. Tomarei aqui solo um aspecto como síntese para mostrar como se desenvolve esse processo em grupo.

Ela dirá: “… a situação grupal provoca e convoca a atualização de sensações e imagos corporais arcaicas, vivências fusionais e de fragmentação, angustias primitivas, fenômenos de ressonância e de espelho, mobilizando-se nela o que alguns autores chamam identificação primaria, … que é sempre “ser-com-outro”, em uma relação de unidade ou continuidade”.

El processo de escrever em grupo possibilita aos integrantes um âmbito de sustentação do psiquismo, onde podem ser elaborados os conteúdos implícitos de suas criações, onde podem trabalhar suas resistências e conter-se os uns aos outros, incluindo-se em suas experiências.

Quando se realizam as leituras em grupo pode-se constatar o que chamo de multiplicação de significados. A cena traída por um dos integrantes e seus significados, resuena en las escenas de los otros integrantes, que identifican puntos en común con sus escenas escritas o que no fueron escritas, pero que ya fueron vividas; a veces cuando no son las escenas pueden ser los personajes o los vínculos, esto provoca un nuevo contacto con la propia creación a partir de la creación del otro.

Numa quarta aproximação poderíamos dizer que o processo de criar através da escrita, em grupo, promove a multiplicação de significados que por sua vez promove uma nova escrita e ressignificação.

Tomando os recursos literários, especialmente a metáfora fui descobrindo, através das oficinas, a importância da utilização de algumas técnicas para potencializar a escrita, que serão descritas más adiante. Mas em relação à metáfora a bibliografia que tive como base foi o livro Los problemas de la metáfora de Tudor Vianu, que me fez reflexionar sobre seus alcances e suas funções. Também tomei como referência do livro Metáfora Lúdica de Oscar S. Bricchetto a etimologia da palavra. Metáfora do grego: meta; prefixo que denota “além de” (o que implica mudança); e de pherèin: levar, transportar, trazer; poderíamos traduzi-lo como “trasladar de lá pra cá”.

Muitas vezes não se pode definir um sentimento ou um estado afetivo que aparece com a lembrança de uma cena; no podemos indagá-lo, nem muito menos expressá-lo; se apresenta de forma abstrata. Si indagamos podemos fazer uma primeira aproximação e identificar uma sensação. Ao não poder definir o sentimento por falta de conhecimento ou de resistência, se toma a sensação e se busca uma comparação com algo mais próximo, semelhante, conhecido. A metáfora pode trazer essa aproximação e sobre ela poderemos indagar as possibilidades de significados até chegar ao sentimento e aos aspectos latentes da cena.

Na oficina, uma vez que todos leem seus escritos e se decifram os significados possíveis, uma das técnicas utilizadas é escolher duas ou três palavras que sejam as mais sintetizadoras do que se buscou expressar e se solicita escrever uma poesia que contenha alguma metáfora.

Esse é o momento de maior síntese. Síntese como resolução do conflito, muitas vezes latente.

Quando o trajeto parte do contato com uma cena significativa, esta pode trazer aspectos dolorosos (angustia, medos) ou aspectos relacionados com o prazer (alegria, bem-estar). Às vezes aparece uma cena de tranquilidade e quando se indaga, aparece um sentimento doloroso. Por exemplo, um integrante traz una cena da infância, onde ele está jogando sozinho na sala de sua casa quando se abre a porta e entram seus pais com seu irmão recém-nascido. Quando escolhe as palavras para fazer a poesia, aparece com outra palavra: loucura.  Quando se trabalha a metáfora aparece: a criança que joga sozinha como um ato de loucura. Na reflexão se traz o sentimento da chegada de seu único irmão e como a partir de esse momento já não seria nunca mais estar sozinho com seus pais, ser filho único. Na devolução trago o significado da palavra loucura como alocado, sem lugar, como alguém que havia perdido seu lugar; seu lugar de filho único e como havia sido dolorosa essa situação.

Partimos de uma cena que guarda aspectos contrários, em principio o manifesto e o latente. Quando se selecionam palavras, se faz um primeiro recorte e síntese, quando se chega à criação de uma poesia se alcança o momento de uma síntese más eficaz pelo nível de resolução do conflito como ponto de chegada. Desta poesia podemos extrair a metáfora ou fazer com as palavras mais significativas uma metáfora e decifrá-la, ou podemos apenas solicitar que a partir da poesia se construa uma metáfora. Então esse será um novo momento de síntese no qual aparecerá a transferência como novo ponto de chegada. Na metáfora como recurso literário sempre haverá um aspecto implícito, um aspecto do passado e do presente, sempre haverá uma atualização de um sentimento. Por isso neste processo poderíamos dizer que a metáfora é um recurso literário transferencial através do qual podemos promover a saúde mental; é um processo de criação: a escrita e de recriação daqueles sentimentos de vazio, destruição, medos, sofrimentos que haviam ficado congelados em nossas cenas do passado.

Numa quinta aproximação poderíamos dizer que o processo de criar através da escrita, com técnicas e recursos literários, especialmente a metáfora, promove momentos de síntese como resolução de conflitos, saltos qualitativos, transformação como práxis para a saúde mental.

  1. Personagens e vínculos no mundo interno.

O desenvolvimento destes conceitos estará exposto através da criação literária.

Esta é a elaboração teórica que realizei sobre vínculo, a través de um conto breve.

“Dentro de mi tenho um cenário que se foi construindo desde que nasci. Nele tenho cenas que recordo com facilidade quando preciso ser acolhida e acariciada; há outras que quando as lembro, me trazem uma imensa tristeza, mas existem outras que nem ousam aparecer de tão dolorosas; situações de perda, medos, bloqueios; dores detidas no passado; palavras nunca ditas.

Nesse cenário há cenas e personagens que no passado foram pessoas; algumas me fizeram muito bem e outras me fizeram muito mal; por isso ingressaram de forma fantasiada, representando papéis perseguidores, ameaçadores, perigosos, inimigos ou papéis tranquilizadores, confiáveis, incentivadores, amigos. Assim como mariposas ou dinossauros, eles dentro de mim interagem e eu não percebo claramente por que. De maneira mais fina eu estabeleci e ingressei para meu cenário vários tipos de vínculos. Vínculos possibilitadores, outros repressores; eles são evocados e convocados, cotidianamente, quando menos espero. Aparecem a través de um olhar, de um aroma, uma cor, um gesto, um toque”.

Bibliografia.

  • de Quiroga, Ana; “El sujeto en el proceso de conocimiento” en Enfoques y Perspectivas en Psicología Social, Ediciones Cinco, Buenos Aires, 1986.
  • de Quiroga, Ana; “El grupo sostén y determinante del psiquismo” en Crisis, Procesos Sociales, Sujeto y Grupo, Ed. Cinco, Buenos Aires, 1998.
  • Pichon-Rivière, Enrique; Prólogo de El proceso grupal, Ediciones Nueva Visión, Buenos Aires, 1984.
  • Zito Lema, Vicente; “La amplitud creativa. Mecanismos internos. Arte y locura. El poeta Antonin Artaud” en Conversaciones con Enrique Pichon-Rivière, Cinco, Buenos Aires, 1993.
  • Vianu, Tudor; Los problemas de la metáfora, Colección Ensayos, Editorial Universitária de Buenos Aires, Buenos Aires, 1967.
  • Bricchetto, Oscar Santiago. “La metáfora y Técnica de metáfora lúdica” en Metáfora Lúdica, Ediciones Corregidor, Buenos Aires, 1999.

Nota: Este trabalho, na sua versão original, foi apresentado e publicado em mídia, cd, das VI Jornadas em Homenagem ao Dr. Enrique Pichon-Rivière e IV Jornadas Latino-americanas de Psicologia Social, organizadas e realizadas pela Primeira Escola Privada de Psicologia Social fundada pelo Dr. Enrique Pichon-Rivière, durante os dias 25 a 28 de outubro de 2012, em Buenos Aires Argentina. Nesta versão, para o Blog, não contêm as técnicas utilizadas nas Oficinas e nem algumas das produções realizadas pelas Fazedoras de palavras.

Salvador, dezembro de 2017.

26 de dezembro de 2017

Liliana Graciela Chatelain

Formada em Letras Modernas e Contemporâneas, pela UBA, Argentina. Profissão que exerceu no período de 1985-1990 na Universidade de Lomas de Zamora. Formada em Psicologia Social pela Primeira Escola Privada de Psicologia Social fundada pelo Dr. Enrique Pichon-Rivière, Buenos Aires, Argentina – Profissão que exerceu, na Escola de Psicologia Social de San Martín, em Buenos Aires, nos últimos dois anos antes de se radicar em Salvador.
Tem vinte e oito anos de experiência na Formação de Coordenadores de Grupos Operativos (Psicologia Social Pichoniana) e desde 2007 Coordena a Oficina “A arte de escrever para reparar” no CIEG.
Atualmente exerce a Coordenação Técnica do CIEG, e supervisiona o Curso de Especialização em Psicologia Social de fundamentação Pichoniana, em parceria com a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, em Salvador, Bahia, Brasil.

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