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A DESCOBERTA DO OUTRO

Artigo sobre Vínculo traduzido pelo CIEG

Na complexa engrenagem da vida em sociedade, dois sentimentos espontâneos, quase imanejáveis – atração e repulsa, marcam o ritmo das relações humanas. Cada enfrentamento, cada encontro com o outro desperta em nós uma atitude que se manifesta corporalmente, através de um impulso de aproximação, uma necessidade de confundir-se com esse outro, ou em tomar distância motivado por uma sensação interior de repulsa.
Todos vivemos, a cada momento, frente à realidade, esse jogo que reage a nosso contato com os demais. Falamos de simpatia e antipatia, experimentados a nível instintivo. Suas causas ocultas, sem sentido profundo aparecem somente à luz da Psicologia Social quando a estrutura do encontro é investigada.
O ser humano a partir de suas experiências concretas constrói uma escala de valores, num código que será utilizado constantemente em sua intenção de evadir à solidão e reconstruir seu veículo com o mundo. Nasce assim um padrão de conduta, que atua sempre como modelo, condicionando todas as reações do indivíduo frente a seu próximo.
Ao falar de reações incluímos distintos modos de comportamentos, como a oposição e a luta, ver focar e até penetrar no outro, compartilhar e amar, comunicar-se numa linguagem pré-verbal em que o beijo e o abraço são símbolos da fusão do eu e do tu.

Essa atitude primária, esse impulso de fundir-se no outro, que se dá com distinta intensidade nas diferentes formas de relação, oculta sempre uma dualidade de amor e ódio, e assinala que duas pessoas se encontram para viverem reciprocamente e experimentarem-se, para retificar ou ratificar que esse encontro é um reencontro, quer dizer, a descoberta de uma imagem ideal, que funciona em nosso interior desde a infância e com a qual nós nos mantemos em diálogo permanente.
Tal reencontro alcança sua dimensão mais intensa num enfrentamento amoroso, por isso pode produzir-se a flechada (cupido).
Este reencontro é uma experiência total, que permite descobrir na realidade as imagens que até então se manejavam na fantasia.
A consequência lógica e imediata de toda situação de encontro é o projeto de compartilhar determinada tarefa, o que tende a reassegurar a permanência do vínculo. Assim, dois amigos projetam um trabalho ou uma viagem comum e um casal projeta casar-se, viver juntos e construir uma família.
Esta articulação, este engajar-se de um indivíduo com outro, que nasce da atração, permite depositar nele suas aspirações, pois o vê como a pessoa capaz para realizá-las. Assim, todo encontro resulta de um sentimento emocional e, ao mesmo tempo, instrumental.
No encontro se produz um clima na comunicação entre duas pessoas, as quais nesse momento compartilham um mesmo cenário de espaço e tempo. Enfrentam-se um ao outro com todas as suas forças e fraquezas e é então quando se produz uma inversão de papéis, que não dura mais do que um segundo e da qual seus protagonistas não estão conscientes. Esse pôr-se um no “lugar do outro” tem por objeto explorar sua estrutura interna.

Se esse reconhecimento dá um resultado positivo, se coincide com a imagem esperada, surge o projeto compartilhado. Aparece então o aspecto criativo da relação, criatividade que se pode dar em todos os níveis da atividade do homem. Se esse penetrar no outro para reconhecê-lo tem um resultado negativo, se produz o desencontro, sinalizado pela repulsa.
O mal entendido, em contrapartida, nasce quando, depois do encontro, um dos seus protagonistas se nega a assumi-lo.

Mas o desencontro não consiste em não achar no outro a imagem esperada, senão, fundamentalmente, encontrar, nesse outro, uma figura semelhante à que em nossa história pessoal desempenhará o papel de perseguidor ou frustrador. Esse encontro inesperado com uma imagem odiada ou temida dá a vivência do sinistro.

Em todo vínculo não há só um EU e um VOCÊ. Um terceiro personagem, eterno “convidado de pedra” está presente em toda relação humana. Por isso dizemos que o vínculo é sempre bicorporal – dois atores – e tripessoal – uma presença que pode ser positiva ou negativa.

Essa interpretação das relações humanas em termos de encontro e reencontro não foi elaborada apenas pela psicologia. Os surrealistas, em particular o recentemente falecido André Breton, investigaram por meio de seu método automatismo mental, introduzindo-se nas zonas mais obscuras da mente humana, de onde extraíram seus objetos estéticos, o que tinha por finalidade conseguir o reencontro com o objeto perdido que todo homem busca ao longo de sua vida e em cada ser com que depara.

30 de setembro de 2020

ENRIQUE PICHON-RIVIÈRE E ANA QUIROGA

Referência Bibliográfica: Pichon-Rivière, Enrique e P. de Quiroga, Ana – Psicologia da Vida Cotidiana, Ediciones Galerna, Buenos Aires, Argentina.

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