CIEG - Centro Interdisciplinar de Estudos Grupais Enrique Pichon-Rivière

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CONSTITUIÇÃO DO MUNDO INTERNO

SITUAÇÃO DE NASCIMENTO. VIDA INTRA-UTERINA

A reflexão acerca dos processos de constituição dessa dimensão intra-subjetiva, a qual chamamos de mundo interno, se por um lado implica uma reflexão acerca da gênese dos processos psíquicos, por outro nos situa, mais que nenhum outro aspecto da temática psicológica, no terreno da hipótese, das conjecturas.

Um sujeito humano ao nascer já tem uma história, é o  produto de um processo de desenvolvimento que tem seu ponto zero no momento da fecundação, na constituição do zigoto. Como disse Coleridge, um poeta citado por Arnold Gesell num livro clássico sobre o tema, Embriología de la Conducta: “A história dos nove meses que precedem ao nascimento do homem é provavelmente mais interessante e estranha de acontecimentos de maior envergadura, que os 70 anos que os seguem ”.

O que era obscuridade e desconhecimento até fim do século XIX começa a iluminar-se a partir do que W. Preyer investiga e descreve nos processos vitais do embrião, humano e subumano. Começa a partir de seu trabalho o progresso constante de uma ciência, a embriologia, que hoje recorrendo à infinidade de experimentos e recursos técnicos que facilitam a observação, pode delinear que os modos básicos da conduta têm sua origem no começo do período intra-uterino. Como afirma Gesell, existem hoje, a partir das investigações realizadas, entre as quais se destacam as de Minkowski e as de Hooker, elementos suficientes para traçar um esquema da notável organização da conduta que tem lugar antes do nascimento. As investigações permitem visualizar um nexo sutil que se estende do embrião ao feto, do feto ao recém nascido, do recém nascido ao bebê.

Hoje se conhece minuciosamente cada momento do desenvolvimento no período intra-uterino , se tem indagado acerca dos fenômenos específicos da situação de parto , há conceitos claros acerca do período pré-natal (neonatologia, um dos mais recentes ramos da pediatria). Mas, o que se sabe do desenvolvimento do psiquismo nesse período?

Esse bebê que nasce, que experimenta necessidades, que se satisfaz ou que sofre carências, que resolve a exigência adaptativa da passagem de um sistema, de uma organização vital: do intra-uterino a outro sistema, a outra organização: o extra-uterino; que tipo de registro de sua experiência possui? Que níveis de organização do Eu alcançou nesse momento?

Falávamos, nas aulas anteriores, seguindo a exposição de Freud em “Projeto…”*, de um registro da tensão de necessidade, de intenções de resposta adaptativa, de descarga pelo choro. E como efeito da experiência com o objeto, de uma integração, de uma associação por simultaneidade da tensão de necessidade, a descarga motriz,o pranto e a presença gratificante do objeto. Isto implicará na possibilidade de evocar o objeto, o ganho de outro nível de desenvolvimento, de uma nova função, a que chamamos representacional, da ideação. Freud menciona o desejo, a pseudo-percepção ou alucinação, e nesta seqüência estamos nos referindo a processos psíquicos. Como tem surgido? Quais têm sido seus antecedentes, suas prefigurações nesse desenvolvimento fetal e no momento do nascimento? Têm existido ou não esses antecedentes?

É precisamente frente a estas perguntas que nossas respostas têm o caráter de hipótese. Hipóteses não elaboradas ao azar, mas fundadas no aporte dos estudos do desenvolvimento do sistema nervoso, nas investigações da embriologia humana e enquadradas dentro de um princípio fundamental do desenvolvimento, comum à embriologia e ao pensamento psicanalítico: o princípio de continuidade genética.

Este princípio, vigente na obra freudiana, particularmente na teoria da sexualidade, que se apóia nesta ideia de continuidade de etapa e processo; este princípio da continuidade genética, é teorizado desde a psicanálise por Susan Isaacs (da Escola Inglesa).

Segundo essa lei fundamental, da continuidade genética, cada um dos aspectos do desenvolvimento mental; por exemplo a linguagem, o pensamento lógico, a fantasia, etc., cada fase do desenvolvimento evolui gradualmente de fases anteriores. Isto significa que nas formas mais elementares, mais simples, mais rudimentares, se encontra o princípio de desenvolvimento das formas mais evolucionadas e complexas (e complementarmente, que essas formas mais complexas têm seus antecedentes, sua prefiguração, nos processos mais simples, e rudimentares).

Mas essa continuidade genética de que falávamos não implica que o desenvolvimento seja uniforme. A conclusão de que as formas mais simples antecipem ou prefigurem as mais complexas não quer dizer que não haja SALTOS DE QUALIDADE, que não haja transformações radicais no processo de desenvolvimento. Através das aulas de R.Langer vimos que a aquisição da linguagem e do caminhar significam transformações radicais no desenvolvimento de um sujeito. Mas esse salto de qualidade que é a aquisição da linguagem ou o andar, como transformação do mundo para o bebê, que passa do engatinhar ao se erguer e caminhar, não constitui senão o produto final, qualitativamente diferenciado, mas produto final de uma cadeia de ações, de um processo. Quando começa esse processo? Arbitrariamente poderíamos situar possivelmente naquele movimento do bebê de um mês de vida, que ao ser colocado de cabeça para baixo no berço, ergue a cabeça e realiza os movimentos chamados movimentos de tartaruga. E esse processo continua ao sentar-se, ao engatinhar e, embora o caminhar implique uma mudança radical, o processo não se esgota ali, já que continua se transformando e se tornando cada vez mais complexo  ao subir e descer escadas, ao correr, ao subir em árvores, etc.

Dizia que arbitrariamente situamos a gênese do processo nesse erguer a cabeça, já que a rigor deveríamos situá-lo nas primeiras reações posturais do feto.

Mencionamos a linguagem. Vejamos no desenvolvimento dessa função a vigência do princípio da continuidade genética. A linguagem começa a construir-se com os primeiros gemidos ou gritos do recém nascido. Continua com os sons que se emitem no ato de alimentar-se. Um bebê deixado só no berço produz uma série de sons que têm uma dupla função. Como o choro, têm uma função de descarga da tensão. Mas ao escutar-se, a percepção da própria voz lhe produz prazer e então ele repete o som. É uma situação de jogo na qual o bebê vai realizando simultaneamente uma descarga e uma aprendizagem. Como vocês viram na aula sobre linguagem, o bebê incorpora em primeiro termo o sentido das palavras. É receptor antes que emissor, no código da linguagem verbal. Mas sua compreensão se traduz em ação. Atua de acordo com sua compreensão. Ou seja, quando a criança começa a falar, está culminando um processo, que por sua vez, neste período, tem diversas fases de crescente complexidade; um menino diz “Eu” e não diz “o neném” para falar de si mesmo, com esse “Eu” está marcando a culminação de outro processo, o da construção da identidade, está marcando um salto de qualidade na constituição do SELF, de si mesmo. Mas a vivência emocional de identidade vai se configurando em um prolongado processo que vai desde a simbiose com a mãe à discriminação da mãe de si mesmo, como descontínuos, como seres separados, autônomos. E a constituição da identidade não se esgota (bem sabemos) nesse momento, que esse é um salto qualitativo, semelhante a outros que se darão mais tarde em outros momentos do desenvolvimento. É possível que com estes exemplos fique mais claro o sentido desta lei ou princípio fundamental que rege o desenvolvimento e a configuração de uma conduta e que, como dizíamos, é inerente à reflexão psicanalítica. Partindo desta perspectiva nenhum fato particular da conduta, nenhum processo como pode ser o pensamento lógico, a fantasia, a dissociação, a introjeção, a projeção, etc., deve ser entendido como algo que surge já estruturado, senão como parte de uma continuidade evolutiva, mesmo quando signifique um salto qualitativo nessa continuidade. Nesse sentido é que E. Pichon-Rivière nos coloca como EMERGENTES DE UM PROCESSO.

Todo fenômeno, todo processo pode ser analisado através da análise de suas fases mais iniciais, mais rudimentares. Mas o estudo de um processo – neste caso dos processos psíquicos – o estudo da constituição da dimensão intra-subjetiva, não se esgota no rastreamento de suas origens, mas tem que ser seguida em todo seu desenvolvimento e complexidade. O desenvolvimento de um processo se caracteriza então, porque cada etapa contém e supera a anterior e, ao superá-la, a transforma. Esse é o itinerário que quis seguir nesta exposição da constituição do mundo interno (a depressão do desenvolvimento mostra uma configuração do mundo interno que contém a configuração anterior: objeto bom e objeto mau, mas a transforma na integração do objeto, como bom e mal).

Em relação à formulação do princípio de continuidade genética a partir da embriologia humana, resulta pertinente trazê-lo já que aporta uma valiosa perspectiva para responder a nossa pergunta sobre a gênese dos processos psíquicos e uma clara definição sobre a unidade mente-corpo (o psíquico, a forma mais elevada de organização da matéria). Diz Gesell: “Comprovamos assim que o crescimento da conduta é contínuo, que não se dão bruscos hiatos  entre o embrião, o feto, ou o recém nascido, o bebê e a criança; que pelo menos do ponto de vista da embriologia, tampouco existe uma clara distinção entre mente e corpo. Por acaso não devemos conceber o sujeito como um sistema de ação? Seu corpo cresce, sua conduta cresce. Ele adquire sua mente da mesma maneira que adquire seu corpo, mediante processos evolutivos”. Esta corrente de investigação fala de uma configuração unitária de mente e corpo, em uma morfologia evolutiva única, quer dizer, em processo de constituição de novas formas que abarca unitariamente o somático e o psíquico. E em conseqüência se pergunta: Existe um estado psíquico, por mais tênue que seja, que se encontre isento de alguma tensão corporal, de algum conteúdo motor ativo ou de uma derivação motriz? O pensamento não depende de todo o aparelho motor, da adaptação e do reajustamento postural?

Como comprova esse crescimento contínuo, essa continuidade genética? Por exemplo, as funções vitais da respiração e da sucção e deglutição começam a estruturar-se ao redor do quarto mês de gravidez, com movimentos torácicos que se vão integrando a ponto de poder produzir uma respiração automática desde o nascimento. Também no quarto mês começam a esboçar-se movimentos de deglutição e movimentos labiais que prefiguram a sucção, quer dizer, começa a elaborar-se ali a complexa função alimentar.

A análise de crianças muito pequenas revela a existência de um mundo interno organizado em termo de objeto bom, gratificante, todo poderoso, protetor e objeto mau, perseguidor, destruidor. Essa primeiríssima, arcaica  organização do mundo interno remete à hipótese de uma operação muito recente de mecanismos de dissociação. Quer dizer, nos fala de uma primeira tarefa ou operação psíquica do sujeito, tarefa que aborda com os mais rudimentares níveis da organização do Eu, a que se vê em seus primeiros dias, ou semanas de vida extra-uterina. Essa tarefa inicial é a discriminação e registro de experiências gratificantes, prazerosas, que são diferenciadas de outras experiências, sensações dolorosas, perturbadoras, de muito desprazer. Quer dizer, o bebê registra o prazer de sua experiência com o objeto gratificante, o corpo, o peito materno, que satisfazem suas urgentes e imediatas necessidades de contato e alimento. Mas também registra o perturbador, o doloroso da necessidade insatisfeita, o desprazer da passagem pelo estreito canal do parto, da exigência adaptativa que implica o nascimento, as mudanças de temperatura, etc.

Seguindo a linha do princípio de continuidade genética, quais antecedentes intra-uterinos podemos encontrar para essa rudimentar operação psíquica, a da dissociação do objeto em bom – mau? Para isso devemos refletir acerca das condições da vida intra-uterina.

A situação simbiótica, o tipo de circulação, de nutrição e de oxigenação, própria da vida fetal, garantiriam em princípio, uma situação de carência mínima, um harmônico interjogo da necessidade e da satisfação. Mas isto não é absoluto. Trata-se da INTERAÇÃO DE DOIS ORGANISMOS e nem em todo momento da gravidez há uma harmonia perfeita entre o ciclo vital da mãe e o ciclo vital do feto. Nem sempre há harmonia entre ambos os organismos. E essa mesma relação simbiótica, essa mesma continuidade biológica que garante a satisfação das necessidades do feto determina também que qualquer perturbação sofrida pela mãe, impacte o feto, na medida que produz na mãe alterações metabólicas, sanguíneas, que perturbam o meio interno do filho.

Vocês viram, na abordagem que R. Langer fez desse tema, que o período de gravidez significa um momento de particular mobilização para a mãe. Ao tomar a história clínica, indagou-se sobre dados desse período, na busca de uma compreensão das características do vínculo pré-natal. Esse vínculo vai ter uma eficácia particular, não só na vida extra-uterina, mas em todo o período de gestação, mesmo quando a linguagem desse vínculo, a forma de interação esteja como disse E. Pichon-Rivière, em um “código biológico”.

O sujeito vai se constituindo no interior de um vínculo que é essencialmente ASSIMÉTRICO. Um dos traços de assimetria está dado pelo fato de que um dos protagonistas do vínculo está em processo de gestação, configurando-se física e psiquicamente, o outro é um sujeito adulto, com seu psiquismo totalmente desenvolvido, com uma história vincular, que tem um complexo mundo interno configurado, que por sua vez terá eficácia, incidência na constituição do psiquismo do outro.

A mãe, em interação permanente com o filho em gestação (interação em código biológico), aparece como a mediadora de uma riquíssima rede de relações sociais, relações que abarcam desde relações econômicas de produção até sua estrutura ideológica e jurídico-política, que vão determinar um tipo de gravidez, um tipo de parto, uma concepção da criança, uma organização familiar, uma concepção acerca do destino do sujeito, relações vinculares, trama vincular imediata, determinadas em muitos aspectos por essas relações sociais mais gerais. Nessa trama vincular, cheia de projeções, de expectativas, de depositação de papéis, esse filho pode ser desejado, esperado ou inesperado, ou mesmo, rejeitado. Uma trama vincular na qual esse futuro bebê pode aparecer para a mãe como substituto de seu pai ou de um casal atual ou anterior. A dinâmica vincular na qual está inserida a mãe e seu filho vai constituir uma das condições de produção, de constituição do novo sujeito. E como vimos através da frase de Gesell, não existem estados emocionais que não tenham algum tipo de efeito corporal, esses estados afetam positiva ou negativamente o desenvolvimento do feto.

Dizemos que há uma trama interacional que constitui o cenário, as condições de produção de um sujeito. Nos referimos a esse jogo interacional, que pode preexistir à gestação real. Jogo de papéis e expectativas, de afetos, que se abre para receber esse bebê, mas que irá se fechando também ao redor dele, irá se fazendo em torno desse sujeito, determinando-o, modelando-o, registrando e decifrando suas necessidades, em síntese, constituindo-o como sujeito, emergente vincular e social.

Perguntamo-nos então pela gênese de certos níveis de organização egoica (do eu), níveis operantes ao aparecer nos primeiros tempos de vida extra-uterina e seus possíveis antecedentes no período fetal. Como dissemos ao começar a aula: aqui entramos no terreno das hipóteses, terreno em que não encontramos acordo entre as distintas teorias do desenvolvimento infantil.

Enrique Pichon- Rivière ao falar de proto-depressão e posição pato-plástica está propondo implicitamente a hipótese de um psiquismo muito rudimentar constituindo-se no momento do nascimento e na etapa subseqüente. A existência de um psiquismo rudimentar operando nos primeiros momentos da vida extra-uterina (levando em conta o princípio da Continuidade Genética e o fato comprovado pela embriologia de que muitas das estruturas do sistema nervoso, base material dessa atividade psíquica, encontram-se maduras antes do parto), implica que esse psiquismo rudimentar tem sua prefiguração antecedente na vida intra-uterina.

Isto está proposto como hipótese de trabalho, não como verdade absoluta. A ideia de um psiquismo precoce cedo coincide com a ideia kleiniana (de Melanie Klein) de uma organização muito precoce do ego, também rudimentar, que é a que permite um manejo das cargas instintivas e uma imediata projeção do instinto de morte, incrementado pelo desprazer da situação de nascimento, no mundo externo.

Não seria a mesma a posição freudiana. Pelo menos em Inhibición, sintoma y angustia ”onde nega explicitamente conteúdos psíquicos ao trauma de nascimento (polêmica com Rank), mas se poderia inferir essa hipótese do psiquismo cedo no Projecto…”.

A hipótese de uma atividade psíquica muito rudimentar, definida como um certo registro e discriminação de tipos de experiência, operando nos últimos estados da vida fetal tem suportes muito sólidos nas mencionadas investigações da embriologia humana, particularmente as de Hooker. Tem-se comprovado através de eletroencefalogramas (EEG), pelo traçado, que o feto registra a dor, o desprazer. Podem ser detectadas situações de sofrimento fetal que no caso de ser muito agudo pode produzir lesões e levar até a morte. O sofrimento fetal pode ter maior ou menor intensidade. Flutua desde perturbações ligeiras, que não deixam sequela, a situações muito intensas. Pode ser muito aguda em determinadas enfermidades da mãe ou ameaças de aborto, que podem constituir-se em fator constitucional, de origem fenotípica, quer dizer, adquirida na vida intra-uterina, como a epilepsia. Pode dar outros quadros também, por implicação de distintos fatores.

Em conseqüência, se há sofrimento fetal, se existem perturbações nesse intercâmbio entre mãe e feto, que significam alterações do meio interno do feto, é possível uma primeira discriminação entre este estado permanente ou dominante de gratificação e o desprazer causado pela perturbação interna. Essas duas primeiras sensações muito rudimentares do feto são a matriz das duas grandes categorias da experiência: o prazer e a dor. Vemos uma atividade que implica certa organização: reações diferenciadas das sensações prazerosas e desprazerosas. Quer dizer, discriminação entre tipos de sensação, entre tipos de experiências. Essa primeira discriminação a partir da qual se constituem as duas categorias fundamentais da experiência, será o ponto de partida da categorização pós-natal do objeto bom e do objeto mal. Vínculo gratificante e vínculo frustrante. Essa primeira categorização pós-natal da experiência vincular se funda na mais primária técnica do eu, a dissociação, que cumpre uma tarefa de discriminação e ordenamento da experiência. Como operação mental a encontraremos mais tarde no fundamento de todo pensamento, associada a outras técnicas primárias: a introjeção (passagem fantasiada de fora para dentro) e a projeção (passagem fantasiada de dentro para fora) fundadas nos modelos biológicos do engolir e cuspir; esta primeira categorização, que tem matriz intra-uterina, terá uma função decisiva na constituição do mundo interno do sujeito, em sua vinculação com o mundo externo e as formas de interpretação da experiência.

As possibilidades de integração de experiências analisadas por Freud em “O Projeto…” e que permitem a constituição do objeto interno (vivência de satisfação), estariam prefiguradas em certa capacidade integrativa observável em um feto no nono mês. Recordem o experimento de Spitz, provocando o Reflexo de Moro no recém nascido. Essas  capacidades rudimentares são o germe –a nosso entender – de uma primitiva organização do eu que continuará configurando-se da crise do nascimento em diante. Quer dizer, que veremos uma linha evolutiva na organização egoica, uma CONTINUIDADE GENÉTICA, que vai desde as formas mais simples às mais complexas. Com esse repertório pré-natal, o organismo do feto se prepara para enfrentar o que se tem denominado de crise do nascimento, quer dizer, a passagem de um sistema a outro. Situação que terá, como experiência, uma importância decisiva no destino do sujeito, como fator em uma equação etiológica da conduta.

 

SITUAÇÃO DE NASCIMENTO

 

Nas aulas anteriores hierarquizamos um princípio, uma lei do desenvolvimento; o da continuidade genética, no qual dissemos que enquadraria nossa reflexão acerca dos processos de constituição do mundo interno.

Dizíamos, ao apresentar esse conceito de continuidade genética, que a partir dessa perspectiva nenhum fato particular da conduta, nenhum processo, nenhum mecanismo mental pode ser entendido como algo já estruturado que emerge, de alguma maneira, isolado do processo, de uma continuidade evolutiva, mas pelo contrário, todo mecanismo, todo fato de conduta, toda função só pode ser compreendida no contexto de um desenvolvimento permanente, de uma continuidade na qual se processa gradualmente vindo de fases anteriores mais simples a estruturas posteriores, mais complexas. (Exemplos: a linguagem e o caminhar). Este conceito de continuidade evolutiva não implica de nenhuma maneira um desenvolvimento linear, não implica negar que cada etapa do desenvolvimento que cada novo mecanismo ou função emergente signifique um salto de qualidade em relação à etapa anterior. Dizíamos que o desenvolvimento de um processo se caracteriza porque cada etapa supera a anterior, mas por sua vez a contém, como prefiguração, como antecedente.  Cada etapa, ao superar a anterior, a transforma. Exemplificamos isto colocando como um mundo interno muito primitivo, configurado sobre a base de um objeto bom, todo poderoso, gratificante, protetor, objeto com o qual nos identificamos, e um objeto perseguidor, perigoso, daninho, está, por sua vez, contido e metamorfoseado, transformado na complexa trama argumental, nesse tecido vincular que constitui o mundo interno do adulto, com suas cenas e personagens. A regressão e particularmente a que se dá nessa experiência a qual chamamos psicose, permite a emergência, a manifestação de certas fantasias, de certos objetos que corresponderiam a essas etapas arcaicas, primárias na constituição do mundo interno. Podemos encontrar um tipo de voracidade, um tipo de ansiedade perseguidora, de sentimentos de privação, que invoquem o que supomos serem as vivências e as fantasias de um bebê. Mas dissemos que o mundo interno tem uma historicidade, já que tem uma trajetória temporal, uma trajetória de experiências vinculares. Portanto a indagação do mundo interno permite encontrarmos no adulto com essas presenças arcaicas, ligadas a pontos disposicionais, a momentos críticos dessa trajetória vincular nos quais se viu afetada a aprendizagem, onde essas arcaicas fantasias, esses primitivos objetos, foram se transformando nas sucessivas experiências do sujeito, ao estarem articuladas em um mundo interno mais complexo. Por isso é que embora a análise de crianças tenha aberto caminho para a compreensão acerca do mundo interno do esquizofrênico, é certo também que um adulto psicótico jamais pode ser confundido com uma criança, não só porque pode conservar áreas de sua personalidade, mas porque alguns de seus aspectos mais infantis, regressivos, sofrem uma metamorfose ao longo do seu processo de desenvolvimento. Há analogias, semelhanças, mas também transformações.

Esta reflexão sobre a relação mundo interno de um bebê e o de um adulto psicótico, poderia parecer sem sentido algum. Na realidade, assinala e aponta, na constituição do mundo interno, para os dois aspectos contraditórios do desenvolvimento: por um lado, a continuidade, o encadeamento de fenômenos, o gradual, e, por outro, as transformações, os saltos de qualidade.

Em síntese: segundo este princípio de continuidade genética no qual enquadramos nossa indagação acerca dos processos de constituição do mundo interno, as formas mais simples, mais arcaicas, mais rudimentares, constituem o antecedente de outras formas mais evoluídas e complexas. E, de modo complementar, estruturas e mecanismos complexos, como podem ser a identificação, a internalização, que tem seus antecedentes, suas prefigurações nos fenômenos mais rudimentares, em fatos mais simples. Esta ideia de pré-figuração, de antecedente, implica no princípio de continuidade genética, foi o que guiou nossa reflexão acerca da vida intra-uterina. Foi a partir daí e pelos dados concretos apontados pela embriologia é que foram formuladas certas hipóteses, que talvez não tenham sido totalmente compreendidas. A meu entender, a chave do que Pichon-Rivière propõe em relação à vida intra-uterina e à situação de nascimento, estaria no conceito de prefiguração, antecedente.

É assim que Pichon-Rivière veria, nessa relação diferenciada do feto frente a sensações prazerosas, gratificantes, adequadas, às suas necessidades, que constituem as sensações dominantes da vida intra-uterina, e as sensações desprazerosas que implicam uma perturbação de seu meio vital, uma primeira discriminação de sensações, de experiências. Discriminação que se dá no nível da organização egoica com o qual esse sujeito pode contar, e que, apesar de estar se estruturando há vários meses, ainda está imaturo, inclusive para enfrentar a vida extra-uterina. A organização do “eu” tem neste período e continuará tendo por muito tempo, um nível predominantemente corporal. Isto quer dizer, hegemonia das sensações e da conduta de reflexo. É importante assinalar aqui, que quando Pichon-Rivière fala da quantidade que o “eu” tem neste período, “eu” ou níveis de organização egoica, esse “eu” do qual fala é o mesmo “eu” freudiano (uma das instâncias do aparato psíquico), mas que teria uma sentido mais amplo.

É importante assinalar também que mesmo quando o nível de organização do “eu” é predominantemente corporal e sem a presença de processos psíquicos estruturados, no ser humano, o corporal, o desenvolvimento do sistema nervoso, implica psiquismo. O nível de organização da matéria que se dá no ser humano é a condição do psiquismo, implica essa série de processos, essa qualidade de fenômenos aos quais chamamos psiquismo e o embrião humano é sempre, especificamente, humano. Isto é: desde o começo se inicia uma organização da matéria – condição do psiquismo. Insisto, desde as primeiras aulas nesta visão totalizadora do sujeito, que esta temática implica, por sua vez, uma oportunidade e um risco.

Oportunidade na medida em que permite a aproximação de uma compreensão integradora do sujeito, visualizando a interdependência, a unidade dos processos que esse sujeito protagoniza, o caráter estrutural de seu comportamento. Risco na medida em que transitamos um caminho no qual é fácil ficar enrolado em um obstáculo epistemológico da reflexão psicológica: a dissociação mente – corpo. Enquanto a hipótese acerca do desenvolvimento de certos rudimentos de atividade psíquica na vida intra-uterina, como antecedentes ou prefigurações de mecanismos, de operações mentais que se colocam em jogo desde os primeiros momentos da vida extra-uterina; havíamos assinalado que uma primeira diferenciação entre sensações prazerosas e desprazerosas como diferenciadas das sensações habituais prazerosas, configurava a MATRIZ DE UMA PRIMEIRA CATEGORIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA e, em conseqüência, a matriz de uma primeira categorização do objeto e mais tarde do vínculo, em gratificante e frustrante, bom ou mau. Essa capacidade (fundada) de registro, de reação diferenciada, de categorização das experiências, que postulamos como hipóteses em relação à vida intra-uterina é observável desde os primeiros instantes da vida extra-uterina. Quando a cabeça do bebê emerge do corpo da mãe, sua expressão é de dor, de esforço. É nesses segundos que lhe é exigido resolver sua necessidade mais vital: receber oxigênio. Ele deve encher seus pulmões de ar pela primeira vez, dar a primeira inspirada. Nesse momento seu corpo está estremecido pelas contrações uterinas e devido a seus próprios esforços para sair. Estes segundos que parecem e talvez sejam tão dramáticos, deixam ou devem dar imediatamente lugar a sensações prazerosas, ao ser apoiado sobre o corpo da mãe, ao aproximar sua boca do peito para que possa sugar, ao recuperar contato com o meio líquido, seu meio natural até aí, no momento do banho. O prazer das sensações se expressa nas mudanças corporais que se observam nele, nos matizes de expressão de seu rosto, em uma distensão de seus músculos. A discriminação entre sensações prazerosas e desprazerosas e a reação emocional diferenciada frente a essas sensações, é um fenômeno observável na sala de parto.

A situação de nascimento é emergente do interjogo, da articulação entre dois ciclos vitais: o materno e o fetal. A falta de complementaridade entre ambos os ciclos traria como conseqüência os partos prematuros e os partos pós-maturos. Na situação de gravidez, mãe e filho constituem uma unidade funcional, seus organismos estão intimamente ligados, em interação permanente, provocando continuamente modificações recíprocas. Daí o fato de termos falado de uma continuidade, de uma organização simbiótica. O nascimento implica a ruptura da continuidade. O primeiro momento de descontinuidade, a estruturação de uma nova organização vital para o bebê e para a mãe, o ingresso em outro ritmo metabólico, hormonal, fisiológico e emocional. Mas o nascimento é a resultante natural de um processo de maturação através do qual o feto alcança o repertório de instrumentos necessários para enfrentar a crise do nascimento, o ingresso em um sistema vital progressivamente autônomo.

Essa unidade mãe-filho é afetada por transformações que marcam o período final da gravidez. A produção de certos hormônios é intensificada e há a diminuição de outros. As contrações uterinas adquirem um novo rito e intensidade, o que produz uma mudança de posição no feto, que em um processo normal se coloca para nascer.

É importante assinalar que o nascimento é um fato que traz uma contradição, o que, por um lado, para o bebê significa o abandono, a perda de um sistema vital, de suas condições prévias de vida, implicando uma exigência massiva de adaptação, surge, no entanto como uma necessidade biológica imediata, já que por seu grau de maturação, cumprido o ciclo fetal, o meio intra-uterino já não se constitui no mais adequado para a vida. É por esse caráter contraditório da situação de nascimento que se fala de crise do nascimento, já que se trata de um salto de qualidade no processo de desenvolvimento, que determina uma modificação substancial das condições de vida, uma vez que coloca o sujeito frente ao impacto e à exigência de resolução de múltiplas exigências de adaptação.

Com as modificações do meio intra-uterino, a intensificação das contrações do útero e a conseqüente colocação do feto no canal de parto, começa um período de transição no qual o sujeito abandona uma organização vital nas quais as necessidades básicas de oxigenação e alimentação se satisfazem por via placentária, através de um cordão umbilical. Isto, a princípio, implica que não existe o registro de tensão de necessidade, que não há espera entre necessidade e satisfação. Podemos colocar que no âmbito intra-uterino pode haver perturbação, sofrimento fetal, alterações a nível metabólico, mas que na vida fetal se desconhecem sensações como a fome, que no bebê tem um registro doloroso, com uma expressão emocional de frustração, raiva e sentimento de ataque interno.

O feto se desenvolve em um meio líquido, no qual flutua. O líquido determina certo tipo de sensação, de estímulo em sua pele. Ele desconhece a sensação de gravidade, ou seja, que suas experiências cinestésicas são totalmente diferentes das quais terá a partir do nascimento. O âmbito intra-uterino é escuro e relativamente silencioso. As contrações uterinas que correspondem ao período de dilatação estremecem o corpo do feto, até que ele alcança certo nível de adaptação ao novo ritmo que invade seu meio vital. Mas essas contrações e todo o processo de expulsão que implica atravessar o canal de parto representam experiências desconhecidas e desprazerosas, de temor e estresse. Uma vez que sua cabeça está fora, a necessidade fundamental, básica, imediata de oxigenação exige que se ponha em marcha o reflexo respiratório, substituindo-se assim a oxigenação placentária pela respiração pulmonar. Este reflexo começa a configurar-se no quarto mês de gravidez e está organizado no momento do nascimento. Entretanto seu funcionamento implica um esforço, um processo adaptativo, uma aprendizagem que levará inclusive vários meses (primeiros sons, sorriso para os outros, manejo respiratório). A expressão dolorosa do esforço que reflete o rosto do bebê no momento do nascimento está ligada ao registro dessa necessidade urgente de respirar, a sensação desprazerosa da penetração do ar nos pulmões, ao desprazer das sensações de estresse. Ele recebe ao nascer, ao tomar contato com seu novo meio vital o impacto de outras sensações desconhecidas: os estímulos luminosos e auditivos, que por serem muito intensos lhe provocam perturbação e desprazer. Já não estará em um meio líquido, mas sua pele recebe estímulos totalmente novos. E ao não flutuar, fica submetido à lei da gravidade.

Detive-me na descrição destes fenômenos para mostrar como e a partir de que fatos concretos, se encontra a situação do nascimento como uma redefinição substancial das condições de vida, como PERDA DE UM TIPO DE ADAPTAÇÃO, DE UMA SITUAÇÃO PRÉVIA, NA QUAL HAVIA UMA ADAPTAÇÃO PLENA, E COMO EMERGÊNCIA MASSIVA DE EXIGÊNCIAS ADAPTATIVAS, DE DESENVOLVIMENTO DE NOVAS FORMAS DE CONDUTA.

Essas novas sensações, a contradição entre a experiência prévia e a nova situação, que aparece como perturbações, como desprazer, determinam no bebê o impacto emocional que compromete todos os níveis de organização alcançados por esse sujeito. A crise do nascimento se registra desde esses rudimentares níveis de organização como um processo no qual emergem intensas ansiedades, sentimentos de perda e ataque, configurando-se uma situação inicial a qual Pichon denomina PROTO-DEPRESSÃO.

Um ponto coincidente em distintos autores, ligados ao pensamento psicanalítico em relação à situação de nascimento é o fato deste significar exigência de adaptação e experiência perturbadora em relação a um equilíbrio prévio que traz para o sujeito um EFEITO DESORGANIZADOR.

Faremos hoje uma primeira aproximação, que aprofundaremos na próxima aula acerca de três enfoques desta situação inicial: o freudiano, o de Melanie Klein (M. K) e o da Escola Inglesa e o de Enrique Pichon-Rivière, que apesar de ter uma abordagem original, está influenciada por ambas as concepções, a de Freud e a de M. Klein, embora se diferencie substancialmente delas, por sua proposta vincular, não instintiva; a diferenciação polêmica neste aspecto aparece mais dirigida ao enfoque kleiniano, particularmente pelo papel que Melanie Klein faz quando fala de instinto de morte nos primeiros processos psíquicos.

Freud assinala em sua obra Projecto… que o efeito do desprazer, da frustração nos primeiros estados da vida, tem fundamentalmente um efeito de caos e de desorganização. Assim como a gratificação, a satisfação da necessidade significa um salto de qualidade, a emergência da imagem do objeto, o surgimento da atividade idearia, representacional, a frustração não conduzirá em um primeiro momento, à imagem de um objeto mau, perseguidor, o que implicaria sempre um determinado nível de organização, mas que teria um efeito desestruturante. Este efeito desorganizador da dor estaria incrementado sempre segundo Freud porque o reflexo do choro, que tem uma finalidade de descarregar a tensão, ao estarem intensamente inervadas essas vias de descarga e não parar o choro, reativa a tensão dolorosa.

Comentamos em aulas anteriores que para Freud, segundo afirma em Inibição, sintoma e angustia, a situação de nascimento carece de conteúdos psíquicos. Assinala aí, em polêmica com Rank, que o recém nascido não pode ter conhecimento algum do perigo que o nascimento significa para a conservação de sua vida. Para Freud, o que o feto registra na situação de nascimento é uma extraordinária perturbação da economia de sua libido. Diz Freud: “Chegam a ele grandes magnitudes de excitação, que geram sensação de desprazer não experimentadas ainda”. O nascimento é então para Freud uma experiência prototípica de desprazer, frente à qual o sujeito reage com um determinado tipo de descarga, que se configura no modo corporal da angustia.

Para M. K. a situação de nascimento, como experiência frustrante, seria  a primeira causa da ansiedade. Seria bom clarear que para M. K. – que não é a primeira, mas talvez a mais significativa investigadora de bebês – esta vida emocional começa com os primeiros instantes de vida. Apóia sua própria investigação e seus argumentos teóricos sobre aportes tão importantes como os de Margaret Ribble, que abre uma linha de indagação sobre o recém nascido, linha que culminaria hoje, com uma trajetória, com alternativas, nos aportes do Dr. Levoyer.

Segundo M. K. , desde os primeiros momentos de sua vida pós-natal, o bebê experimenta ansiedades provenientes de fontes internas e externas. A fonte interna de ansiedade perseguidora, a causa primária, estaria na operação interna do instinto de morte, operação que gera o temor da aniquilação, ou seja, que M. K. postula o inatismo da ansiedade perseguidora, que surgiria de um registro da operação interna do instinto de morte. Esta fonte interna de ansiedade se combinaria, na situação de nascimento, com as experiências desprazerosas próprias do parto e da separação da mãe. Isto provoca um incremento do instinto de morte, que deve ser projetado no mundo externo, marcando então para a situação de nascimento, uma predominância da ansiedade perseguidora sobre qualquer outro tipo de reação.

Para E. Pichon-Rivière a hostilidade, o sentimento de ataque, seria emergente de una experiência desprazerosa. Quer dizer, ele propõe uma concepção não inatista da agressividade. A agressão, a hostilidade, o objeto e o vínculo mau, perseguidor se constituiriam a partir do registro de experiências de frustração, de privação, de sofrimento. Implicariam um tipo de reação ligada ao desprazer. Emergiriam, emergem no interjogo necessidade – satisfação, que pode resolver-se para o sujeito de forma gratificante ou frustrante. A experiência de nascimento, na qual o bebê registra privação, desprazer, exigências adaptativas múltiplas, que impactam emocionalmente esse bebê desestruturando-o, gerando nele ansiedades, determinaria, segundo Pichon Rivière, nesse recém nascido uma reação, que ele denominou de PROTO-DEPRESSÃO. Quando E. Pichon-Rivière fala de Proto-depressão, não faz referência ao quadro clínico caracterizado pelo sentimento de tristeza, dor, pela inibição psico-motriz e do pensamento, pela auto-cobrança. Tampouco se refere a sentimentos de culpa e ambivalência, que só serão possíveis mais tarde, quando tiver integrado o objeto ao vínculo, com seus aspectos bons e maus, gratificantes e frustrantes. Essa capacidade de integração implica outro nível de desenvolvimento do qual carece o recém nascido, e em conseqüência uma trajetória de experiências particularmente eficazes na constituição do mundo interno. Então: por que proto-depressão? Freud define a depressão como REAÇÃO FRENTE À PERDA DE UM OBJETO. A PRIVAÇÃO, A PERDA DO OBJETO SÃO AS CONDIÇÕES DA DEPRESSÃO.

Ao falar de proto-depressão como situação inicial, pós-natal, Pichon-Rivière aponta para o fato de marcar tanto o caráter real, OBJETIVO DA PERDA, como seu REGISTRO pelo recém nascido, ainda que o mesmo não conte com uma organização egoica, que lhe permita distinguir entre ele e o objeto, viver a situação de mudança, de passagem de uma organização vital a outra, registando-a corporalmente como privação, como exigência adaptativa, como desprazer. E, em determinados casos, se há sofrimento agudo, como anoxia (interrupção ou supressão da oxigenação dos tecidos), ou algo que pode surgir em um parto muito difícil, esse desprazer pode aproximar-se da vivência de aniquilação da qual fala Klein, ainda que sua gênese estaria na experiência e não na operação de um mítico instinto de morte. Para Pichon-Rivière, na medida em que o sujeito tem uma história, uma experiência na qual se dava um conjunto de sensações que desaparecem e se encontra submetido a exigências adaptativas desconhecidas, a emergência da tensão de necessidade, o inicial como sentimento não pode ser só o perseguidor, mas que nessa experiência primeira há um registro de privação, já que é uma vivência de ataque, quer dizer, que a partir dessa primeira experiência pós-natal, Pichon-Rivière proporá a coexistência e a cooperação dos sentimentos, das vivências, das ansiedades de perda e de ataque.

Em conseqüência, a reação do recém nascido frente à perda do ventre materno e frente à experiência desorganizadora do nascimento (exigências adaptativas), sofrerá ansiedades de perda e ataque. A quantidade destas ansiedades está relacionada com o tipo de experiência de nascimento, com o tipo de parto, com o deciframento vincular, social de suas necessidades e satisfação. A quantidade de privação, o ritmo das ansiedades leva a uma situação de desorganização, de confusão na qual pareceria inibir-se essa rudimentar capacidade discriminatória inicial. Mas a experiência com o objeto, o contato com o corpo materno permite a adaptação, a recuperação do vínculo. O registro da situação é eminentemente corporal; corporalmente registra a privação, corporalmente registra a recuperação. Em seu corpo se mostram os símbolos da crise, sua instabilidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Autora: P. de Quiroga, Ana – Proceso de constitución del mundo interno, Ediciones Cinco, Buenos Aires.

Tradução para o português: Liliana Graciela Chatelain

 

10 de maio de 2019

Ana Pampliega de Quiroga

Filosofa; Psicologa Social argentina; Atual Diretora da Primeira Escola Privada de Psicologia Social fundada pelo Dr. Enrique Pichon-Rivière em Buenos Aires, Argentina; coautora de vários artigos com E.P.R. Autora dos livros “Enfoques e Perspectivas em Psicologia Social. Desarrollos a partir del Pensamiento de E.P.R.”; Matrizes de Aprendizaje; Crítica de la Vida Cotidiana; Proceso de Constitución del Mundo Interno entre outros.

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